Testemunhos

Testemunho Rita Nabeiro

Rita Nabeiro

CEO da Adega Mayor

INTERIOR – Território de identidade, resiliência e oportunidades

O interior de Portugal é muito mais do que um espaço geográfico – é um território de identidade, de resiliência e de oportunidades. Do Minho ao Guadiana, a montante e a jusante, a nascente e a poente, encontramos paisagens deslumbrantes, marcadas por vales verdejantes, serras imponentes e planícies douradas. Mas, acima de tudo, encontramos pessoas e histórias que fazem deste chão um património vivo e dinâmico.

Entre os muitos lugares especiais, que marcam o interior, a raia ocupa um espaço singular no meu coração. Essa linha imaginária que separa os mapas sempre foi, na realidade, um ponto de encontro, um símbolo de convivência, onde culturas, idiomas e laços familiares, se entrelaçam. Para mim, a raia é, muito mais, do que um limite territorial; é um convite à partilha e à descoberta.

Quando penso nessa ideia de linha no horizonte, sou transportada para o Alentejo, para Campo Maior, para a casa dos meus avós – um lugar onde as memórias se entrelaçam com os afetos -, e onde a história de resiliência e crescimento se escreve todos os dias. Foi ali que a trajetória do meu avô Rui Nabeiro começou, entre desafios e sonhos, numa época em que a adversidade não era um obstáculo, mas sim um impulso para ir mais longe.

A raia nunca foi uma barreira para ele. Pelo contrário, sempre viu nela uma oportunidade, uma ponte para novas possibilidades. Costumava dizer: “Espanha sempre foi o meu litoral. Como era o mar para os portugueses da costa, que saíam para fazer contacto, explorar “novos mundos”. Essa perspetiva aberta, de ver para além dos limites, continua a inspirar-nos hoje.

Ao longo das décadas, o interior de Portugal tem enfrentado desafios demográficos, com o êxodo de muitas pessoas em busca de novas oportunidades nos grandes centros urbanos ou no estrangeiro. Contudo, é fundamental mudar a narrativa e reconhecer que este território tem um potencial extraordinário.

A chave para revitalizar o interior passa pela criatividade, pela valorização do património e pela aposta naquilo que torna cada região única. As pequenas localidades têm demonstrado que, com estratégias inovadoras e colaboração entre autarquias, empresas e cidadãos, é possível criar condições para o crescimento sustentável. O investimento na educação, na saúde e na mobilidade é essencial para garantir que estas comunidades continuam vibrantes e atrativas.

Mais do que um espaço de baixa densidade, o interior deve ser visto como um território de união e de futuro. A missão de quem trabalha para o seu desenvolvimento deve ser a de fortalecer laços, promovendo a coesão e a proximidade entre regiões. O interior não é apenas um patrimônio do passado; é um presente valioso e um futuro promissor que merece ser construído com determinação e entusiasmo.

Valorizar o interior de Portugal, valorizar o Alentejo, é garantir que este permanece um lugar vivo, onde história, natureza e inovação coexistem. Não se trata apenas de preservar o passado, mas de projetar um futuro, onde as comunidades possam prosperar e onde cada pessoa tenha a liberdade de transformar a sua realidade. O interior é, acima de tudo, uma terra de possibilidades infinitas – e, cabe, a nós, reconhecê-las e potenciá-las.

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Prof. Luís Braga da Cruz

Ex-Ministro da Economia

O progressivo abandono a que o Interior de Portugal tem sido votado parece ter a resignação da nossa sociedade contemporânea, como algo que não tem salvação possível, qual fenómeno inexorável, que o tempo se encarregará de fazer aceitar, até que a má consciência se esbata e fique confinado ao estatuto de estado natural…

Antes sofríamos com a miséria do Mundo Rural. Depois, usámos outras retóricas e buscámos desesperadamente soluções que pugnassem pelo desenvolvimento dos recursos endógenos e que garantissem equilíbrio e sustentabilidade autónoma para quem vivesse nesses territórios. Até lhes chamámos territórios de baixa densidade. Porém, a Constituição não permite que se aliene território, obriga a proteger e a valorizar o património cultural, a promover o bem-estar e a qualidade de vida do povo português e a igualdade real entre portugueses. Tal significa que não podemos deixar de tratar este problema como uma causa maior.

Acredito que a economicidade também pode ser alcançada nestes territórios, desde que se valorizem os bens e serviços que eles produzem e de que toda a sociedade beneficia: sejam produtos rurais de qualidade, seja a manutenção de paisagem com valor patrimonial, seja o contributo para a preservação de ecossistemas. Temos de assumir que os serviços prestados por estes territórios têm de ser remunerados e que as suas frágeis estruturas sociais e económicas têm de ser protegidas, reconhecendo neles uma clara falha de mercado e um injusto tratamento cometido às suas prestações.

O primeiro objectivo de qualquer programa de apoio aos territórios do Interior e aos seus habitantes é de gerar e manter emprego. Para cumprir estes desígnios é imprescindível que estruturas locais sejam estimuladas, que haja formas de aconselhamento nas organizações de apoio e que soluções inovadoras permitam que os seus habitantes não se encontrem em situação de desigualdade de tratamento. A experiência diz-nos que há soluções específicas que podem ser experimentadas, que devem ser bem acompanhadas e podem conduzir a bons resultados. Mas isto reclama organização política descentralizada, vontade esclarecida e implicação da sociedade como um todo na busca e aplicação de soluções. Admito que a Agência pode ser um parceiro para que esta nova abordagem tenha sucesso.

Lisboa,  04/11/2021 - António Mendonça, economista e candidato a Bastonário da Ordem dos Economistas.

(Leonardo Negrão / Global Imagens)

Prof. António Mendonça

Bastonário da Ordem dos Economistas

A iniciativa de criação da Agência Ibérica da Montanha e do Montado é de grande interesse e oportunidade, por todas as ordens de razões.

Permito-me salientar algumas delas.

Em primeiro lugar, a sua qualidade de Agência Ibérica, promovendo a cooperação entre os dois lados da fronteira.

Portugal e Espanha estiveram durante muito tempo de costas voltadas e isso prejudicou o desenvolvimento dos dois países, particularmente nas regiões transfronteiriças que perderam fatores de dinamismo económico que não deixaram de contribuir para o atraso relativo em que hoje se encontram, face às regiões dos centros económicos.

Esta iniciativa terá, seguramente, um impacto significativo no reforço da integração económica entre Portugal e Espanha, não só nas regiões envolvidas, mas também como exemplo para outras regiões transfronteiriças, produzindo externalidades positivas que não deixarão de se projetar no conjunto das economias e sociedades dos dois países e da sua posição conjunta no espaço da União Europeia.

Em segundo lugar, a sua orientação para o desenvolvimento do interior, constituindo neste âmbito uma iniciativa inovadora que poderá potenciar a mobilização de recursos e vontades que poderão constituir fatores de sustentabilidade para diversos projetos de investimento que, nas condições atuais, não têm condições de se realizar.

Em terceiro lugar, porque se trata de um projeto que transcende a mera preocupação regional para se projetar numa integração dos territórios na sua globalidade, permitindo gerar escala e alargar o campo da racionalidade económica para outros projetos que exijam maior dimensão e complexidade, designadamente em matéria de transportes e logística.

Finalmente, mas não menos importante, porque mobiliza a atenção para aspetos essenciais do desenvolvimento presente e futuro, como sejam a água, a sustentabilidade, o clima, as florestas, sem esquecer a importância do intercâmbio científico, cultural e, também, político.

Estou certo de que Agência Ibérica da Montanha e do Montado se afirmará como um parceiro incontornável para a promoção do desenvolvimento das regiões transfronteiriças e do interior, de Portugal e de Espanha.